Porque eu decidi que quando esse texto acabar, eu vou te esquecer. Eu vou te tirar de mim e não vou mais ter os olhos fundos e os ossos doloridos de não conseguir ficar parado. Teu nome não vai mais soar minhas mãos e a tua presença vai ser descartável. Eu vou voltar a sorrir e o meu sorriso vai torcer por mim. Não vai ter mais o que fazer, não vai ter o que dizer e o que sentir. A ferida vai fechar e a hemorragia estancar. O medo vai sair pela força, pelo som da minha voz e vai fugir. E quando a música tocar, a minha ironia vai cantar com exagero. Eu não vou mais sofrer porque sofrer vai ser menos do que isso que eu vou sentir agora. Vou ficar rouco, enjoado de ti. Não vou mais aceitar nenhuma possibilidade de amor porque amor é o tamanho do buraco que eu me tornei. Vou começar a me querer e não entrar mais em conflito com a minha mente, porque a minha mente só pensa que sabe muito bem falar demais. Meu imenso corpo vai se completar denso nesse imenso copo de vida dura. Os meus passos não irão negar que querem sentir o macio que é existir, pisar no chão seco, deslizar pelo mundo. As metáforas do que é um drama e uma dor, vai soar em tentativas. Eu não vou brigar mais comigo porque nada mais tem o tamanho do que eu quero dizer, e sim apenas sentir. Não vai haver ódio e nem saudade porque o que eu vou sentir não vai ter nome. Não vai ter nome porque isso vai chegar antes de eu saber o que é, e eu não vou me importar de saber porque eu vou gostar. Você vai embora de mim antes de um verbo qualquer. Vai ficar no passado pra depois não ser alguma coisa. Não vai mais se transformar porque eu vou te esgotejar-se pra fora, acabar-te gota à gota. Vai sair vascular, pelas veias que me batem, e a minha carne de ser o que eu sou vai ser tornar um materialismo cheio de graça. E dentro desse buraco torto que eu levei tão a sério, dentro dele vai ter outro buraco só que de gente grande, que não vai ver nada além de uma indigência que não me cabe mais na cabeça o prazer que é de te levar.